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Andrez, M. e Moreira, J. (2003, Outubro). O papel dos incidentes críticos em amizades na adolescência: Para uma elucidação do processo de Partilha de Significado. Comunicação apresentada no V Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia, Lisboa.

Resumo

O conceito de partilha de significado foi proposto para descrever e explicar como, nas relações interpessoais, os parceiros constroem a relação através do diálogo. O objectivo deste trabalho é o de caracterizar as formas de que se reveste este processo nas relações de amizade dos adolescentes, bem como as mudanças nele ocorridas em função do desenvolvimento socio-cognitivo. Foi utilizada uma metodologia qualitativa para a análise de relatos referentes a incidentes críticos ocorridos no desenvolvimento das relações, comparando as respostas de dois níveis etários (12/13 anos e 18/19 anos).

Sumário

O estudo das relações de amizade na adolescência pela Psicologia não permitiu ainda esclarecer, de forma satisfatória, acerca dos processos envolvidos na evolução de uma relação de amizade. No nosso entender, um caminho essencial para essa compreensão implica saber como cada um dos amigos perspectiva a relação e o modo como ela evolui. O conceito que actualmente nos parece mais útil para lidar com esta questão é o de Partilha de Significado. Segundo a formulação proposta por Steve Duck em 1994, a partilha de significado é uma organização comum para o significado que rodeia um tópico X, acerca do qual duas ou mais pessoas dialogam. As pessoas "vêem não só como avaliam X, mas também vários outros tópicos, acontecimentos e experiências que contextualizam a sua avaliação de X (i.e., elas têm uma organização comum para o significado que rodeia o tópico X)" (Duck, 1995).

Este conceito, porém, raramente tem sido efectivamente operacionalizado em estudos empíricos. O nosso estudo pretende ajudar a colmatar essa lacuna, através de uma caracterização do modo como o processo de partilha de significado opera no contexto do desenvolvimento de relações de amizade entre adolescentes. Para esse feito, recorremos ao chamado "método dos incidentes críticos", recolhidos no âmbito de entrevistas semi-estruturadas. Proposto por Flanagan em 1954, este método foi utilizado como um modo de saber que comportamentos das pessoas levam a que as tarefas sejam bem ou mal sucedidas. Quando aconteciam situações que levavam a que uma tarefa estivesse em risco de ser mal sucedida, Flanagan e/ou os seus colaboradores questionavam os sujeitos acerca dessa situação, para saber o que tinha sido feito (incidente) que tinha determinado o rumo da situação, no sentido da sua resolução favorável ou desfavorável (daí o adjectivo de crítico). Deste modo, questionámos os adolescentes acerca do que fizeram numa situação indicada por eles como importante, o que pensaram, o que sentiram, que consequências resultaram daí, e o que se modificou em cada uma deles e na sua amizade.

Por outro lado, para entender a evolução das amizades na adolescência, há que ter em conta questões desenvolvimentistas. Somos levados a acreditar que a partilha de significado aparece com importância central a partir da adolescência devido ao surgimento da perspectiva da terceira pessoa (estádio 3) e da perspectiva societal (estádio 4) na compreensão interpessoal acerca da amizade (Selman, 1981). Este autor contribui para fazermos uma leitura das diferentes complexidades da experiência e do pensamento nas relações de amizade. Isto é, o seu modelo ajuda na interpretação de como se entende a partilha de significado no início da adolescência -12/13 anos - e na sua suposta fase final - 18/19 anos.
A última perspectiva que nos parece contribuir para concretizar a noção de partilha de significado foi iniciada por John Bowlby - a vinculação. Diversos autores têm salientado que as amizades, sobretudo as mais íntimas, apresentam componentes semelhantes aos das relações de vinculação. Por outro lado, é também sabido que os diversos componentes da vinculação se transferem das relações parentais para relações com pares segundo uma ordem desenvolvimentista bem definida (Hazan e Zeifman, 1994). Assim, espera-se que nas amizades entre adolescentes estejam presentes, sucessivamente, os componentes de procura de proximidade, recurso aos amigos em tempos emocionalmente difíceis ("porto seguro") e protestos contra a separação ou a deterioração da amizade. Não se espera que o componente mais tardio da vinculação - a base segura - esteja presente nas relações de amizade nestes níveis etários.

Deste modo, as nossas principais questões de investigação são:

Questão de Investigação 1: Quais os principais tipos de manifestações do processo de partilha de significado no desenvolvimento de amizades na adolescência, tal como evidenciados em incidentes críticos ocorridos nesse processo?

Questão de Investigação 2: Haverá uma sequência típica para o surgimento desses diferentes tipos de manifestações, reflectindo níveis sequenciais do desenvolvimento do processo de partilha de significado dentro da relação?

Hipótese 1: Existem diferenças na complexidade da partilha de significado entre amigos, comparando adolescentes mais novos e mais velhos.

Hipótese 2: No desenvolvimento da amizade adolescente surgem sucessivamente três componentes da vinculação, na seguinte ordem: procura de proximidade, porto seguro e protestos de separação, não se verificando o surgimento do componente de base segura.

Neste momento, o processo de análise dos resultados não se encontra concluído, pelo que não é possível ainda apresentar resultados ou conclusões. Análises preliminares, no entanto, parecem indicar que virão a ser obtidos resultados do maior interesse para o esclarecimento das questões propostas e para a orientação de investigações futuras.

Referências

Duck, S. (1994). Meaningful relationships: Talking, sense, and relating. Thousand Oaks, CA: Sage.

Duck, S. (1995). Talking relationships into being. Journal of Social and Personal Relationships, 12, 535-540.

Flanagan, J.C. (1954). The critical-incident technique. Psychological Bulletin, 51, 328-358.

Hazan, C., & Zeifman, D. (1994). Sex and the psychological tether. Advances in Personal Relationships, 5, 151-177.

Selman, R.L. (1981). The child as a friendship philosopher. In S. R. Asher e J. M. Gottman (Eds.). The development of children's friendships (pp. 243-272). Cambridge: Cambridge University Press.

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